Seria mais fácil se as pessoas acreditassem
Atualmente estou trabalhando na EMEF Joaquim Bento. Tenho gostado bastante de trabalhar com as crianças da primeira série de lá. É muito interessante ver o progresso dos alunos. Tenho uma turma de crianças boa, o grupo aceita bem as regras de convivência. Quando alguma criança quebra alguma regra, como machucar alguém, pegar algo que não é seu ou não faz a lição direitinho, as próprias crianças se corrigem. O lema da sala virou: “Você merece coisas boas se faz coisas boas. Se você não faz coisas boas, perde coisas boas”. É muito bonitinho como as crianças entenderam direitinho. Quando alguém quebra as regras normalmente a própria criança, ou o grupo sentencia: “Perdeu uma coisa boa...”.
Elas também estão evoluindo de forma interessante na alfabetização em si. Já há crianças alfabéticas na sala, a maioria é silábica e não há nenhum pré-silábico. Isso é muito bom considerando que no início do ano, com exceção de duas crianças, todas eram pré-silábicas.
Os alunos gostam muito de atividades voltadas à matemática, já estou conseguindo até trabalhar o conceito inicial da divisão, que para o primeiro ano seria muito avançado. É uma gracinha como eles ficam brincando “Dois mais dois é quatro” “Quanto é vinte mais vinte?” “Como se escreve cento e vinte?”
Infelizmente, tenho tido alguns problemas com as famílias. Inicialmente, os pais não mandavam para a escola o material que as crianças ganharam da prefeitura sob a alegação de que “as crianças estavam estragando o material”. É claro que as crianças tem que aprender a usar o material, mas isso só pode ser feito se elas tiverem material para que eu ensine a usá-lo. Depois de algumas conversas a situação está melhorando e a maioria dos pais manda material para as crianças agora. Bom, pelo menos o essencial.
Depois enfrentei, aliás, enfrentamos, eu e as outras professoras da primeira série, um problema relacionado à metodologia de ensino. Os pais questionavam o trabalho lúdico, atividades construtivistas e a falta de lição de casa. Alguns chegaram, inclusive a me trazer cartilhas no estilo “Caminho Suave”. Atendi vários pais, expliquei várias vezes a metodologia que estava usando, mostrando os documentos oficiais que amparavam a minha prática. Expliquei minha postura sobre a lição de casa: concordo com ela, mas apenas se a atividade está de acordo com a criança. Uma lição de casa que a criança não consegue resolver sozinha, só a desestimula e ficou visível que algumas crianças não teriam ajuda dos pais para realizar tarefas caseiras. Muitas crianças vêm à escola sem realizar tarefas mínimas de higiene como escovar os dentes, pentear os cabelos ou até tomar banho. É comum que crianças que não realizaram a tarefa durante a aula não serem orientadas pelos pais. O ideal seria que se a família observa que a criança não fez a lição daquele dia questione o aluno, mas o que eu tenho visto são questionamentos sobre o trabalho da escola. As crianças são muito pequenas para o ensino formal. Por mais que eu as estimule a estudar, se esse estímulo não vem de casa, me resta pouco a fazer.
De toda forma, conforme as crianças foram avançando no conhecimento, começaram a reconhecer letras, ler pequenas palavras, algumas até textos, os pais se acalmaram. Alguns já vieram até parabenizar o trabalho.
Nas ultimas semanas tive alguns atendimentos a famílias que foram bem cansativos. O primeiro foi uma mãe que se mostrou descontente porque eu orientei sua filha a cuidar de seu próprio material. Depois disso a responsável pela criança se negava a conversar comigo. Depois de ser convocada por escrito e sob ameaça de encaminhamento para o conselho tutelar, ela aceitou falar comigo sobre o desenvolvimento da criança. Então registrei e encaminhei a situação devidamente. O questionamento da mãe era se não havia uma criança roubando as coisas das crianças na sala.
Ironicamente, realmente há não uma, mas pelo menos cinco crianças que pegam os pertences dos outros na sala. Expliquei que estou trabalhando junto às crianças e às famílias para que isso não ocorra, mas que ainda assim a filha dela deve aprender a cuidar de seus pertences. Depois da conversa a mãe pareceu entender a situação e está colaborando agora.
O problema dos roubos tem sido realmente um problema e, após muito conversar com as crianças, levei o assunto para reunião de pais. Expliquei que as crianças estavam pegando material de outras crianças, lanche, roupas, batons, brinquedos, todo tipo de coisa. Os pais se comprometeram de conversarem com suas crianças e exigiram que eu fosse rígida com as crianças que estavam pegando as coisas dos outros. Combinamos que o trabalho seria intensificado e que eu usaria as expressões roubar e polícia para me referir ao ato de pegar algo de outra pessoa e às punições que isso poderia gerar.
Acontece que uma das mães que exigiu rigidez para lidar com as crianças era mãe de uma das crianças que estavam pegando as coisas das outras. Ela se sentiu ofendida quando a filha pegou o lanche de uma coleguinha no intervalo e foi orientada a devolver um pacote de bolacha igual ao que pegou. Essa mãe eu não atendi. Tudo tem limite e ela estava sendo, no mínimo, incoerente.
E para finalizar houve o caso da aluna que vinha intimidando os outros alunos, dizendo que só seria amiga das outras crianças se está lhe dessem algo. Assim ela estava pegando coisas das crianças e as forçando a fazer coisas que elas não queriam em troca da sua amizade. Ela estava forçando as crianças a entrar no banheiro e invocar a loira do banheiro, por exemplo. Pedi que a mãe ficasse na hora da saída para conversar comigo em particular, afinal é um caso um pouco mais sério, mas ela estava sempre ocupada e remarcava o dia da conversa.
Enfim, aconteceu de uma criança trazer duzentos e cinquenta reais para a escola e entregar a menina citada acima e mais outra. Não sei se foi porque ela queria a amizade da colega, a criança que trouxe o dinheiro é muito tímida, me disse apenas que o dinheiro era de sua mãe.
Como exigido pelas mães na reunião de pais, eu fui rígida com as crianças que pegaram o dinheiro da colega. As fiz prometer que nunca mais fariam isso.
No dia seguinte, hoje, não fui trabalhar, pois tinha uma consulta médica, mas fui informada que a avó de uma das crianças que pegou o dinheiro ficou ofendida pela forma como repreendi a criança. Acontece que a criança em questão é justamente a que eu venho tentando falar com a família, mas a mãe está sempre ocupada.
Bom, irei atender a família.
Está sendo um aprendizado intenso. Tenho concluído algumas coisas que me ajudarão a lidar melhor com as famílias, eu acho:
1 Registrar tudo e na hora que acontece.
2 Não atender pais sem registrar por escrito e fazê-los assinar.
3 Atender casos mais extremos sempre com alguém da direção.
4 Sempre fazer uma cópia da pauta da reunião de pais e mandar para os pais que não estiveram presentes.
De todo jeito, sei que isso vai melhorar. As pessoas ainda não conhecem meu trabalho. Não tenho dúvidas do que estou fazendo, sei que estou fazendo o melhor possível em cada situação, com o tempo vai passar.
Lembro que quando entrei na EMEI Barão em 2008 também enfrentei muitos problemas, inclusive com a direção da escola questionando meu trabalho. Com o tempo as pessoas viram como eu trabalho e criaram confiança. Tudo passou. Tudo vai passar agora também. Só é uma pena que as pessoas ajam assim, eu me sinto uma criminosa que precisa ser vigiada. Como sabiamente diz meu coordenador: “A educação seria mais fácil se as pessoas acreditassem nos professores”.
Aliás , hoje meu coordenador me falou outra, também muito boa: "Não se responsabilize por coisas que não são sua função. Sua função é ensinar." Pois é, podemos ajudar na educação das crianças, mas ela não é nossa responsabilidade. Todos os problemas que vêm surgindo na minha escola ultimamente são de ordem moral e isso é função da família.
Enfim, eu acho que mesmo na dificuldade a educação ainda é o caminho. Como diz o Mario Sergio Cortella: "O impossível é apenas uma opinião". Me contem nos comentários o que vocês acham. Está difícil também? Teve ideias diferentes? Conta para a gente!
Nenhum comentário:
Postar um comentário